Final de Copa do Mundo, com a Argentina na disputa, seja perdendo ou ganhando, é pura adrenalina. Isso vale para 2026 contra a Espanha, para 2022 contra a França, para 1990 contra a Alemanha, para 1986 também contra a Alemanha, para 1978 contra a Holanda. Para sempre.
E vale para 1939. Contra o Brasil, é claro. Você sabia que em janeiro desse ano o Mário foi ao Maracanã assistir a um “Brasil-Argentina” e, nacionalista que era, ao fim da partida (em que deu Argentina!), estava mesmo era torcendo pelo futebol, equivalendo-o à arte que, sem explicar, explica as nossas paixões e as dores do nosso mundo?

O resultado dessa experiência foi um artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, escrito em 22 de janeiro de 1939, que publicamos nas páginas 9 a 16 de nossa antologia O Futebol, lançada em 2016 dentro da Série Outros Passos, e que reúne textos de Mário de Andrade, de Alcântara Machado e de Lima Barreto sobre o mais popular dos esportes para nós, sofredores brasileiros.
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“Na verdade, como havia uma disputa, disputa incontestável, pouco importa se de futebol ou de guerra, na verdade todos estávamos odiando os argentinos e a Argentina naquele momento. E dizem que jogo de futebol estreita relações de amizade: estreita nada! Sejamos perfeitamente sinceros: nas condições atuais da educação dos nossos povos, tais competições só servem para alimentar antagonismos entre massas nacionais. É certo que uma centena de sujeitos, mais bem conformados por uma verdadeira educação esportiva, conseguem, dois minutos depois do ódio, convertê-lo em pasmaceira. Mas em amor é que não. O ódio se acalma, a gente chega a reconhecer a superioridade do adversário. Mas fica tristinho.” (p. 11)
“[…] enquanto isso, a raspadeira elétrica vai assustando tudo quanto é beija-flor que se encontra no caminho, e juque! faz mais um gol. É doloroso, senhores.
Mas era também admirável. Quem já terá visto uma força surda, provinda de uma vontade organizada, que não hesita mais, e que diante de um trabalho iniciado, não há razão, não há transformação política ou financeira que faça parar!… Eram assim os argentinos, naquela tarde cheia de ensinamentos. Não que eles se impusessem como professores de ordem, professores de energia ou de coisíssima nenhuma. Se alguém desejar saber exatamente o que eu senti, eu sentia a Grécia, a Grécia arcaica, naquele tempo em que se fazia a futura grande Grécia. Dezenas de tribos diferentes, organizando-se, entrosando-se, recebendo mil e uma influências estranhas, mas com uma força que só se pode chamar de divinatória, aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável, e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional. Quem quiser compreender-me que me compreenda, quem não quiser, paciência: mas no fim do quarto gol, eu me tinha naturalizado argentino e estava francamente torcendo para que os argentinos fizessem mais uns vinte ou trinta gols.” (p. 13)
“Sim, os argentinos escalaram o seu quadro e este se preparou para o jogo, mas o que a gente percebe é que na verdade há trinta anos que os argentinos vêm-se preparando para o jogo de hoje. A verdadeira força de um povo, de uma raça é converter imediatamente cada uma das suas iniciativas ou tendências em norma cotidiana de seu viver. Os argentinos, desculpe lhe dizer isto com franqueza, os argentinos são tradicionais.” (p. 14)
Até 2030, Copa do Mundo.

O Futebol
Com Alcântara Machado, Lima Barreto e Mário de Andrade na linha de ataque, esta antologia traz textos de origens e visões diversas sobre o mais popular dos esportes do Brasil. Da invenção do futebol por Macunaíma a uma goleada sofrida pelo Brasil em pleno Maracanã, este livro é pura emoção. O livro faz parte da Série Outros Passos.





